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Arte, cultura e socialização

  • Foto do escritor: Rabech Oliveira
    Rabech Oliveira
  • 13 de ago. de 2020
  • 8 min de leitura

Como a Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga mantém a tradição na comunidade por meio do acolhimento


(Foto / Divulgação)

Em meio a um dos bairros mais antigos da cidade de São Paulo, perdido em um dos cruzamentos da Avenida Nazaré, não muito distante do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo encontramos a Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga, ou FUNSAI, uma construção tímida com jardins e uma entrada convidativa exatamente na altura do número 145 da Rua Clóvis Bueno de Azevedo.


Diferente das outras construções da FUNSAI, a que encontramos nesse endereço é a unidade Quixote, reconfortante mais do que podemos descrever, mesmo não sendo localizada em um ponto movimentado do bairro do Ipiranga, a fundação atrai um número de pessoas considerável.


Por volta das duas da tarde algumas das aulas já haviam se iniciado, o sol já estava alto e ocasionalmente atrapalhava algumas das aulas da tarde, mas nada muito preocupante para os alunos e os professores. Victoria Vianna, 19, foi uma das alunas participantes da oficina de Danças Urbanas, durante um ano, a mesma que ocorria naquele espaço destinado aos jovens da comunidade local.


E vale ressaltar que a estudante não aprendeu somente passos de danças que inundam a cidade em altas horas da noite, na FUNSAI, Victoria pôde aprender sobre a história da dança e cada um dos grandes nomes do mundo da dança, até mesmo os passos mais comuns em grandes produções musicais.


“A turma era grande, éramos quase quarenta pessoas” Victoria lembrou, “Em poucos meses nos tornamos muito parceiros uns dos outros, até os alunos com mais experiência não hesitavam em ensinar os iniciantes.”


A aluna não negou adjetivos para todas as pessoas envolvidas com a oficina, “eram extremamente gentis e um ótimo lugar para se conviver.” Apesar da pouca idade Victoria ainda completou dizendo que “as amizades construídas no espaço Quixote sempre são lembradas com muito carinho”.


As palavras da agora ex-aluna não deixam de passar a principal motivação para a criação da FUNSAI, assim como tudo que ela oferece para a comunidade. Em meio a tradição ainda é possível que encontremos o acolhimento que uma grande metrópole como São Paulo deixa passar em seu dia-a-dia corrido.


Um homem com um sonho

A Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga, ou simplesmente FUNSAI, foi aberta em 1896, na cidade de São Paulo, especificamente no bairro do Ipiranga. O responsável pela abertura da fundação foi o Conde José Vicente de Azevedo, conhecido em seu tempo por ser além de político e advogado, um grande filantropo.


Cristão fervoroso, o Conde se baseou nos fundamentos cristãos e à sua infindável procura de uma sociedade mais justa para criar uma instituição que ajudasse, principalmente, crianças, adolescentes e idosos em situação de vulnerabilidade. Apesar de ser o equivalente a um deputado estadual de seu tempo, o Azevedo, queria prover a esse grupo um tipo de Assistência Social.


E ele conseguiu ter sucesso em seu objetivo.


Hoje em dia, a fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga conta com mais de 120 anos de existência e acolhendo mais de mil pessoas. Além da sua unidade principal no bairro do Ipiranga, as atividades de acolhimento social são desenvolvidas em mais seus espaços com mais de cinco projetos em cada um deles.


O intuito principal é o fortalecimento do convívio familiar e comunitário de uma forma totalmente gratuita, visando a proteção social de crianças e adolescentes, cumprindo os princípios constitucionais da Lei Orgânica de Assistência Social, Lei das Diretrizes e Bases da Educação, Estatuto da Criança e Adolescente e Estatuto do Idoso.


Muito mais que apenas acolhimento social

Em suas cinco unidades: Centro de Apoio à Juventude, Espaço Comunitário Quixote, Centro de Educação Infantil, Berçário Anjo da Guarda e Centro de Convivência Vivavida; a FUNSAI oferece diversas atividades voltada para a família, crianças, adolescentes e idosos. Não existe um limite para quem possa participar de qualquer um dos projetos que são desenvolvidos pela fundação.


Por mês, são atendidas cerca de 1350 pessoas em situações de vulnerabilidade e riscos sociais. Não existe nenhum tipo de preconceito com quem busca atendimento, todos são bem vindos seja qual for sua situação.


(Foto / Divulgação)

Unidades e projetos em prol da comunidade

O Berçário Anjo da Guarda, é um serviço prestado especialmente para famílias que possuem crianças em risco de vulnerabilidade e exclusão social. Assim como os demais atendimentos, o berçário oferece serviços gratuitos de apoio emocional, psicológico e social. O principal objetivo é o desenvolvimento de crianças entre 4 meses e 2 anos de idade, sendo assim cinquenta crianças por mês com horário integral de segundas à sextas-feiras.


Para que as famílias possam ser atendidas pelo berçário, é necessário uma triagem, que inicialmente pode ser agendada pelo telefone da instituição. Na entrevista as crianças precisam estar presentes, assim como os pais portando documentos que constam seus números de registro, renda, cópias de condição de moradia e documentos que mostrem caso recebam algum benefício do governo, como Programa Bolsa Família, Auxílio Aluguel, etc.


Com a finalidade de que as crianças continuem a ter atendimento, o Centro de Educação Infantil passa a atender as crianças recém saídas do Berçário Anjo da Guarda, já que é especificamente para as crianças de 3 a 5 anos. Seus objetivos são semelhantes, já que promove inteiramente o desenvolvimento da criança, incentivando a cidadania, estudo e autonomia.


Sempre instigando aceitação e respeito com o próximo.


Diferentemente do anterior o Centro de Apoio à Juventude, ou apenas CAJ, atende crianças de 6 a 14 anos e 11 meses, com horários semelhantes à escolhas integrais, sendo assim nove horas diárias. O projeto que visa a formação, autonomia de crianças e adolescentes, por via socioassistencial, incentivando a participação de projetos, a continuidade nas escolas, estimulando o lado cultural e artístico por meio de atividades e desenvolvimento de habilidades.


A FUNSAI oferece outro projeto direcionado aos jovens, é o Espaço Comunitário Quixote, dessa vez, abrangendo ainda mais seu público, o projeto acolhe pessoas de 12 a 29 anos de idade para fazer parte de suas atividades envolvendo cultura e arte.

Através de oficinas de dança, tais como indiana, brasileira e contemporânea; aulas de percussão, canto, circo e teatro, e também, set de filmagem, o projeto atrai os jovens com a finalidade de encorajar a expressão através da arte, fortalecendo o vínculo comunitário, trabalhando a capacidade auto aceitação e descobrimento que muitos passam durante esse capítulo de suas vidas.


Por último e não menos importante, o Centro de Convivência Vivavida, dedicado inteiramente para a terceira idade, atua com a prestação de serviço socioassistencial, a idade mínima para participar das atividades oferecidas é de 60 anos, com horários flexíveis das oito às onze e meia.


O propósito do Vivavida é que os idosos tenham um envelhecimento saudável, uma qualidade de vida melhor, com isso, podendo resgatar a autoestima perdida por eles. Os trabalhos artesanais incentivam a melhora na coordenação motora, assim como as atividades físicas que procuram despertar a vida saudável dos idosos.


Autonomia Social e Transformação Comunitária


Além das 5 Unidades, a FUNSAI oferece mais 6 projetos para melhor atender a comunidade. São eles: Elo e Transformação; Conectados; Família Acolhedora; Família Empreendedoras em Moda; Família e Seus Laços e Sábado Alegria.


O projeto Elo e Transformação foi criado em 2011 e iniciado em 2012 com o objetivo de trabalhar os vínculos familiares e comunitários.


Orientado pela Política Nacional de Assistência Social (PNAS), os encontros acontecem uma vez por mês por 2 horas, com atividades em grupos socioeducativos que propõem discussões dentro do tema de políticas públicas e práticas familiares que podem contribuir no empoderamento social e emocional e, também, ao acesso às informações sobre seus direitos e deveres e possibilita o desenvolvimento do bem-estar nas relações entre os parentes e transformar o meio social e familiar.


O projeto é composto por uma assistente social e uma psicóloga social e quem pode participar são os responsáveis e pessoas que tenham uma familiaridade com as crianças e adolescentes que frequentam a FUNSAI.


A Família Acolhedora é um projeto em que famílias acolhem crianças entre 0 a 6 anos que foram separadas de sua famílias biológicas e que aguardam uma decisão da Vara da Infância e Juventude, com quem desenvolve esse serviço.


As famílias devem estar devidamente cadastradas, selecionadas, capacitadas e habilitadas para essa função. Elas recebem em suas casas, uma criança que esteja precisando de um acolhimento temporário, até que possa retornar à sua família de origem, ou quando isso não acontece, seja encaminhada para uma família substituta.


Para participar, a família não pode estar inscrita no cadastro de adoção da Vara da Infância e Juventude dos Estados da Federação e estar de acordo com vários requerimentos pedidos pela fundação.


O projeto Famílias Empreendedoras em Moda surgiu em 2011, com o objetivo de possibilitar melhoria nas condições de vida, por meio de qualificações profissionais na área de confecção de acessórios de moda e empreendedorismo, para famílias que possuem uma situação de vulnerabilidade social.


Há um espaço para os grupos formados realizarem suas produções e exposições, sendo 2 pavimentos para a produção de bolsas, acessórios pet, moda casa e outras coisas, sendo todo mobiliário, equipamento e tecidos resultados de doações.


Para participar, é necessário ter entre 18 e 59 anos, saber confeccionar peças artesanais ou acessórios de moda, ter disponibilidade para se dedicar às atividades semanais do projeto, além de desejar se tornar um empreendedor.


Outros projeto da FUNSAI é Família e Seus Laços, que foi criado em 2008 e seu intuito é acompanhar as famílias das crianças e adolescentes que frequentam a Casa de Acolhimento da fundação. O objetivo principal do projeto é que essa famílias reconheçam suas potencialidades do território de moradia e, principalmente, os recursos das políticas públicas a fim de acessá-las.


O Conectados é uma rádio web que está no ar desde 2011 e conta com o patrocínio do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (VAI). A rádio contém uma variedade de programação: contação de histórias, músicas populares, informações dos eventos que estão ocorrendo na região e muito mais.


O projeto envolve os alunos e frequentadores dos serviços da FUNSAI, suas famílias, funcionários, comunidade do bairro do Ipiranga e imediações, possibilitando a criação, expressão, integração e difusão cultural à essas pessoas.


O último projeto a ser falado é o Sábado Alegria, que acontece todos os sábados entre 8h e 12h com o objetivo de proporcionar momentos de integração e lazer às crianças e adolescentes frequentadores do Centro de Apoio à Juventude (CAJ), com atividades esportivas que procuram desenvolver o lado esportivo, social e a inclusão entre esses jovens.


Vivências e aprendizados


A estudante de 17 anos, Mariana Yamada nos contou o quanto gostava de participar de um dos projetos organizados pela FUNSAI. Durante 2 anos fazendo parte do projeto Quixote, Mariana afirma que “as aulas sempre foram muito boas, divertidas e bem aproveitadas” se recorda com alegria ao falar “a gente se reunia em roda e nos alongávamos” continuou descrevendo as lembranças “no fim a gente juntava as mãos no centro e gritávamos um ‘tamo xunto’”, diz se referindo ao grito de guerra criado pelos alunos que participavam da oficina do Quixote.


Ao ser abordada sobre o que ela mais sentia falta quando participava do projeto que incentiva a sensibilização artística dos alunos, Mariana diz que a receptividade da fundação era importante e que “desde a minha primeira aula eu fui muito bem acolhida por todos, senti como se conhecesse todo mundo há anos”.


Outra aluna que conversamos, a Laura Yukie, 16, contou que participou, também, da Oficina de Danças Urbanas por dois anos. “Algumas das conversas que tínhamos antes da aula, me inspiraram a ser uma pessoa melhor, ainda mais quando o professor chegava e colocava uma música de fundo só para que nós nos alongarmos enquanto conversávamos.”

A jovem ainda enfatizou que “a energia de lá era surreal. A gente sonhava junto, trabalhávamos temas importantes de maneiras lindas. Era encantador fazer parte desse projeto.”


O Isolamento

Para a confecção desta reportagem, entramos em contato com a fundação, porém, levando em conta o estado mundial e o da cidade de São Paulo, que está com a quarentena declarada, não foi possível o contato direito com os diretores das unidades muito menos com os diretores gerais da instituição.


Com o retorno previsto apenas para o dia 10 de Maio a fundação, continua recebendo doações apesar de estar em quarentena.


Como contribuir?


No site da própria fundação é possível que quem esteja interessado doe a quantia que quiser através do PagSeguro, todo valor arrecadado é distribuído para as unidades e projetos.


No entanto, a FUNSAI tem parcerias com outras empresas para conseguir se manter, alguns nomes que ajudam a fundação são a BRLOGIC e a NEX.


Reportagem escrita por: Mariana Bertaco, Rabech Oliveira e Victoria Vianna





 
 
 

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