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Manual de Jornalismo Científico

  • Foto do escritor: Rabech Oliveira
    Rabech Oliveira
  • 24 de nov. de 2020
  • 10 min de leitura


Ilustração: Freepik

Introdução


O jornalismo por si só é investigar, coletar informação e transmitir de forma simples a informação para uma sociedade. Porém, alguns assuntos precisam ser tratados de uma forma diferente, seja pela sua complexidade ou até mesmo pelo impacto que a informação divulgada terá na vida social.


Neste manual compilamos algumas dicas para que o jornalista saiba o que deve ser feito, assim como ele deve manusear a informação. Afinal, quando falamos de divulgações científicas, o cidadão comum não consegue entender termos técnicos, tampouco alguma fórmula complexa que explica o porquê do celular dele receber chamadas.


Dessa forma, as informações contidas aqui serão de extrema importância para que o jornalista, como divulgador e intermediador entre a ciência e a população, consiga passar sua mensagem de forma clara e compreensível.



Parte I - Dilemas éticos da cobertura científica.


Como toda profissão, o jornalismo e o próprio jornalista acabam se vendo em situação em que o código de ética é aplicado. O primeiro artigo do código de ética do jornalismo é totalmente referendável ao direito à informação.


“Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.”


Sendo assim, a ciência também está inclusa nesse conceito, porém, sabemos que não é um assunto fácil, tampouco popular com a grande população. Todavia, existem formas de transformar algo difícil em algo interessante e fácil.


Conhecido como aquele que sabe de tudo um pouco, o jornalista muitas vezes pode se perder ao publicar uma notícia a respeito de um estudo científico e, em alguns casos, precisando ocorrer para a retratação e correção da matéria depois de publicada.


O que chamamos é popularmente conhecido como “barrigada”, que em alguns casos pode trazer algum tipo de má reputação para o veículo de imprensa, afinal, como alguém pode confiar em alguém que sempre acaba corrigindo suas informações.


Para ilustrar exatamente esse cenário, temos um exemplo que aconteceu em uma publicação online.


No site Observatório da Imprensa, Rubens Pazza cita uma informação equivocada encontrada em uma matéria da Folha Online. Pazza escreveu para o site informando o erro, que em alguns dias foi corrigido.


O erro em questão foi a má tradução do termo fat acid que foi substituído por “ácido gorduroso”, enquanto o correto seria “ácido graxo”. Sendo assim temos uma questão não tão complexa que relações poderiam seguir: a consulta com um especialista.


É uma etapa primordial quando estamos falando de algum notícia, já que, ao entrar em contato com um profissional da área, o repórter pode tirar as possíveis dúvidas que uma pessoa leiga teria, assim como ter certeza que os termos, que muitas vezes não são corriqueiros, sejam traduzidos e até mesmo explicados de uma forma clara e coerente.


Veja que, em uma pesquisa mais aprofundada, o erro seria facilmente contornado, na verdade, ele nem existiria. A era da internet muitas vezes não deixa com que a redação tenha todo o tempo do mundo para cuidar de cada um dos detalhes científicos.


Porém, a credibilidade científica vem a partir de duas coisas principais: a coerência e a veracidade.


Quando falamos de coerência vamos muito mais além do que apenas o conteúdo da matéria e podemos abranger até a escolha de palavras das manchetes. No ano de 2018, o infectologista David Uip no fórum Amarelas Ao Vivo falou exatamente sobre falsas notícias relacionadas a saúde e a ciência para a revista Veja..


Enquanto comentava sobre a Aids, Uip disse: “Toda notícia falsa gera falsas esperanças, e muitas pessoas desacreditam no tratamento, deixando de tomar os medicamentos”. Algo que também pode se observar no Brasil no início de 2018 quando o país começou a registrar um aumento no índice de febre amarela, já que a população por influência de notícias falsas não estavam seguindo as recomendações da vacina, e em alguns casos nem estavam recorrendo a vacinação.


Uip ainda complementou na possível solução para esse mal “Prefiro atender um paciente que chegue ao seu consultório com alguma informação, ainda que ela não seja a mais adequada, porque assim consigo indicar fontes confiáveis​ para procurar ela”.


Na revista Veja, por exemplo, temos uma sessão chamada Letra de Médico, onde a jornalista Adriana Dias Lopes traz matérias ligadas às áreas da saúde explicadas de uma forma simples e com o aval de profissionais da área. Alguns nomes que estão ligados a coluna são: Roberto Kalil, Salmo Raskin, Sergio Simon, entre outros.


Ou seja, é possível que uma redação se adeque para que toda a informação seja entendida pelo jornalista para que então sua divulgação aconteça. Porém, não cabe somente a redação se preparar para isso, mas sim o jornalista ir atrás de profissionais que possam o ajudar e quem sabe até complementar uma matéria.



Parte II - Como combater a má divulgação?


Uma boa maneira de exemplificar o quanto uma notícia pode ser prejudicial ao ponto de colocar em risco a vida das pessoas é analisarmos a quantidade de Fake News que se espalharam no decorrer da pandemia do novo coronavírus que aconteceu durante praticamente todo ano de 2020.


Sites sem credibilidade procuram espalhar informações falsas e absurdas sobre assuntos que estão em alta, afinal, são as manchetes que irão gerar cliques e acessos, não importa o quão absurda ela seja. Podemos até dizer que essas publicações não são feitas por jornalistas de verdade, já que não existe qualquer tipo de transparência com a sociedade.


Sem contar a falta de verificação da verdade.


Peguemos a pandemia no novo coronavírus para exemplificar. Uma das notícias falsas mais populares foi a “eficácia” da hidroxicloroquina no combate e prevenção da doença. A propagação de informes como esse é muito rápida, ainda mais quando um líder, como o presidente da república ou um membro do executivo, contribui para isso sem nem ao menos estudos científicos comprovarem.


Sempre lembrando que estamos passando por uma revolução midiática, e informações são compartilhadas a todo momento, seja pelo feed da sua rede social ou por mensagens instantâneas que estão apenas a um clique de acesso.


Outro boato que se espalhou rapidamente foi sobre um outro planeta estaria em rota com a terra, o chamado Planeta X. Claro, um título chamativo e a incitação ao pânico foram os dois fatores que levaram esse boato a se espalhar e criar força.


Porém, aquele ditado “uma mentira contada várias vezes se torna verdade” foi refutado pelo portal G1. O portal explicou que a invenção foi feita por um “rico comerciante de Boston”, Percival Lowell inventou a história uma vez que havia construído um observatório próprio e isso não estava sendo bem visto para as pessoas que trabalhavam lá, dessa forma procurou um planeta além da órbita de Netuno que acreditava estar influenciando a sua posição.


O nome “Planeta X” se dá ao fato a como chamamos um valor desconhecido de uma questão. No entanto, o desenrolar dessas históra levou a descoberta de outro planeta: Plutão.

Por conta dessa hipótese de Lowell muitos ainda acreditam que o planeta exista, em algum lugar alinhado a órbita do Cinturião de Kuiper, porém, nada passa de especulação mesmo na comunidade científica.


Outro cenário para observação é do site “Fatos Desconhecidos” conhecido por seus títulos sensacionalistas e grande alcance em redes sociais como o Facebook. A página também conta com um portal onde em teoria as matérias eram publicadas de forma mais “completa”.


Porém, a popularidade da “Fatos Desconhecidos” deu-se justamente por suas publicações sobre teorias da conspiração, ou seja, hipóteses que são criadas sobre um determinado assunto sem a comprovação de um especialista.


Claro, ao ganhar um aumento em visualizações nas plataformas, a página recebeu diversas críticas por suas notícias sensacionalistas e com a falta de uma fonte de averiguação confiável para confirmar o tema abordado em suas chamadas.


Em uma postagem de 2017 a Fatos publicou o que seria um animal que viveu na era dos dinossauros, uma mistura de cavalo com gorila e ainda o nomeou como um Chalicothere.


Porém, não levaria muito tempo para descobrir que na verdade aquela publicação era o resultado da falta de pesquisa. Quando é explicado que o Chalicothere vivia na mesma era dos dinossauros por exemplo, o equívoco acontece porque o Chalicotherium é um perissodáctilo, ou seja, um mamífero terrestre ungulado (que se apoia diretamente sobre as unhas que possuem formato de casco), e essa espécie não pertence à era dos dinossauros, pois segundo o site de pesquisas do Museu de História Natural de Nova York (American Museum of Natural History) seu surgimento foi há 55 milhões de anos (10 milhões de anos após a extinção dos dinossauros).


Para simplificar criamos também um Guia para a checagem de Confiabilidade de um portal de Notícias, ou simplesmente um GCN. Nele, temos algumas perguntas e ações que podem ajudar um leitor (e quem sabe um jornalista que se aventura em sites internacionais) a checar a confiabilidade do portal.




Se atente aos sites que estão divulgando as notícias! Qual a credibilidade que eles passam? Já teve casos de Fake News anteriormente?


Cheque quais são as fontes apresentadas na reportagem, elas realmente existem?



Verifique se há erros gramaticais! Normalmente textos que foram escritos para apenas disseminar uma informação, não se preocupam com detalhes como esses.



Sensacionalismo não! Reportagens com objetivo de chegar diretamente na sociedade normalmente tem títulos chamativos e ambíguos.




Parte III - Jornalista Ético, existe ou é mito?


É de responsabilidade social que um jornalista informe a sociedade sobre assuntos que estão acontecendo no mundo, muitas vezes cobrado que haja imparcialidade,o que podemos considerar um mito do jornalismo. Uma vez que todo veículo de imprensa é tendencioso para um lado, mas ainda assim nega a sua parcialidade, podemos até encarar isso como falta de transparência.


A reflexão e o questionamento da sociedade ao seu redor são a chave para que a mensagem à ser transmitida venha de forma correta. Claro, não estamos falando da questão semântica, cada veículo tem sua própria linguagem e maneira de abordar um determinado assunto.


Porém, a necessidade de imediatismo que a sociedade está inserida faz com que algumas coisas sejam deixadas de lado para que o “furo” saia. Como manter então coisas tão importantes como a transparência, imparcialidade e o caráter quando estiver em uma situação de total imediato?


A resposta poderia ser simples, mas não é, afinal, estamos em constante mudança tanto como sociedade como uma categoria que em tese, serve ao interesse público. No entanto, não podemos esquecer um dos principais pilares do jornalismo: a transparência vinda do comunicador é necessária que exista senso crítico.


O ponto em questão é a verdade da informação e os meios que foi usado para obtê-la.


Em dossiê para SBPjor, o professor e jornalista Edgard Patrício diz respeito aos dilemas éticos no jornalismo e informa que a tecnologia é um dos pontos que vem acarretando em mais deslizes éticos, como a famosa câmara oculta, utilizada para burlar a apuração de um crime, por exemplo. Porém, em seu texto diz que “os ‘crimes’ são comprovados deriva para uma função judiciária que não compete ao jornalista exercer”.


Assim como a sociedade está se transformando a cada minuto, o jornalismo também está. Os questionamentos éticos vem e vão, alguma inovação tecnologia pode mudar a maneira que fazemos o jornalismo diário, ou até mesmo um desastre natural.


O fato é não se estagnar em um problema, e sim tentar arrumar os erros que já foram cometidos e combater as mentiras com verdades. E justamente por conta disso, criamos um check-list com algumas dicas que podem fazer o jornalista não se esquecer de pontos cruciais em uma reportagem.




Escrever de maneira clara para que o leitor entenda do que se trata a notícia



Consultar especialistas do assunto abordado



Ir além do factual, propor temas que estimulam debates na sociedade



O cuidado em um texto científico deve ser maior, pois pode colocar em risco a vida do leitor caso uma informação errada seja divulgada.



Sempre seguir o Código de Ética do Jornalismo, principalmente quando houver dúvidas se é correto ou não algum meio de conseguir uma informação.




Parte IV - Soluções não tão fáceis assim


Desde a postagem da famigerada curiosidade do Chalicothere, o site “Fatos Desconhecidos” vem tomando maior cuidado na apuração de suas notícias tanto que as que vão apenas para a página no Facebook quanto as se tornam vídeos no Youtube.


Analisando as atuais notícias publicadas no portal, é notório que houve algumas mudanças positivas em relação à veracidade, com matérias mais elaboradas e com títulos menos sensacionalistas. Porém, ainda há alguns erros como a utilização de trechos de algumas fontes que foram entrevistadas por outros veículos.


Uma solução para mudar a didática de uma matéria que aborda um tema difícil é a utilização de recursos gráficos como os infográficos. No jornalismo científico é essencial para que o público entenda com mais facilidade sobre o assunto que está sendo noticiado.


O portal G1, pertencente ao Grupo Globo, realizou no dia 26 de janeiro de 2020, uma matéria explicando como reconhecer e o que fazer em caso de infarto. O lead, ou seja, primeiro parágrafo do texto, informa os sintomas e como socorrer para que o médico possa fazer o diagnóstico correto.


No segundo parágrafo, a matéria tem a explicação do cardiologista e coordenador do Programa de Infarto Agudo do Miocárdio do Hospital do Coração (HCor), Leonardo Piegas, sobre a gravidade do infarto e a importância de ir até uma emergência mais próxima, apresentando assim duas vozes especialistas para complementar a matéria.


Após o texto, a matéria tem um grande infográfico mostrando como é o infarto e o que acontece em nosso corpo quando ocorre esta obstrução da artéria do coração. Mesmo com a explicação sobre os sintomas no início da matéria, a publicação volta a informar quais são as manifestações e o que fazer quando se sente a presença do mal-estar ilustrando os sintomas mencionados.


A partir dos pontos citados podemos ver que sim é possível fazer um jornalismo consistente e informativo sem que o assunto se torne algo chato ou até díficil de entender. Outras formas de trazer a informação para o público geral de maneira didática é entender quais os meios midiáticos que estão sendo consumidos.


Outro exemplo de suma importância para citar é o canal da BBC Brasil no Youtube, em que toda a equipe realiza matérias em vídeos não muito extensos, porém bem completos.


O espectro de assuntos abordados vão até das notícias de pautas quentes como eleições e o dia-a-dia, até estudos complexos sobre a mente de pessoas bilíngues. E todos os vídeos, até o mais simples que seja, é feito de maneira completa com falas dos repórteres e principalmente de especialistas no assunto.


Concluímos que sim, é possível fazer um jornalismo científico e tecnológico sem a necessidade do imediatismo e com o compromisso com a veracidade e checagem de fatos. Assim, se cria uma comunidade de leitores que sabem que podem confiar nas matérias que são publicadas pelo veículo, possivelmente se tornando uma referência para a cobertura de alguns assuntos.


Manual feito por: André Borzani, Mariana Bertaco, Rabech Oliveira e Victoria Vianna

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