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Serginho: A visão de um profissional diante das dificuldades no futebol.

  • Foto do escritor: Rabech Oliveira
    Rabech Oliveira
  • 16 de out. de 2019
  • 5 min de leitura

Um sonho além da dedicação

Serginho (foto: Matheus Ozzetti)

Grande parte da molecada da periferia brasileira, cresce com um sonho em seu coração: ser jogador de futebol. Os meninos vivem a infância inteira jogando bola na rua, sujando o pé com a terra vermelha do campo de terrão e tirando o “tampão” do dedo do pé. Quando se tornam adolescentes, o sonho não muda, mas quer trocar o terrão por uma grama verde e usar a camisa do time do coração. Acreditam que se tornando um jogador profissional, podem tirar suas famílias da miséria e dar um futuro melhor a eles. Quantas vezes você já não ouviu essa história sendo contada em diversos veículos?


Continuemos com a visão desse jovem menino da favela e o imaginemos agora mais velho, por volta dos dezesseis anos tentando passar pela peneira de um tive relativamente grande para ir para a base e não direto para o profissional. A pressão toma conta de si ao ver que podem conter olheiros naquela peneira. Provavelmente há meninos mais preparados que tiveram a chance de frequentar uma boa escolinha de futebol, enquanto desde pequeno ele estava acostumado com o terrão próximo de sua casa. Seu futuro está em jogo e isso o preocupa, mas o que preocupa mais é que sua família também depende da sua atuação durante aquele teste. Imagine o que poderia acontecer se aquele garoto conseguisse passar pela peneira, subir para a categoria de base e depois pudesse alcançar o futebol profissional? Talvez ele já pensasse em comprar uma casa num bairro melhor para sua família morar e finalmente não teria tanto com o que se preocupar, mas sim apenas com seu sonho se realizando.


Isso tudo é o que podemos imaginar sobre um menino aleatório criado apenas para ilustrar a situação, o que acontece de verdade, só sabe quem passa a situação na pele. As dificuldades para subir até o profissional são muitas, ainda mais você não tem o apoio de um empresário, por exemplo. Por isso procuramos conversar com quem realmente sabe sobre isso, um jogador profissional que passou por todos os momentos difíceis no início de sua carreira.


Combinamos de nos encontrar com o personagem principal desta reportagem no Centro de Treinamento e estádio do Água Santa. O estádio é o Distrital do Inamar e leva esse nome por ser localizado no Bairro Inamar, preferiria da cidade de Diadema. Antes mesmo de entrarmos para conhecer, notamos a dimensão do lugar, que por ser um lugar relativamente novo, a cada ano está maior.


Sérgio Simões de Jesus tem 37 anos e é conhecido como Serginho pelos Aquáticos — torcedores do Água Santa. Ele chega sorridente e nos recebe com bom humor, a primeira coisa que ele nos pergunta é se queremos conhecer o campo e a resposta é óbvia. Ao passarmos pelas escadas onde os jogadores usam para subir para o campo, o que notamos inicialmente é a frase em uma das arquibancadas: “Deus não alimenta um sonho em sua mente que não possa ser realizado”. A frase representa um momento difícil que o clube viveu em 2015, quando aconteceu um acidente deixando feridos quando uma obra era feita para receber o Campeonato Brasileiro — que exigia que o estádio ocupasse no mínimo 10 mil pessoas.


Estádio Distrital do Inamar (foto: Matheus Ozzetti)

Carreira

Iniciando sua carreira em 2000 pelo Sãocarlense, Serginho passou por diversos clubes como o Juventus-SP, Guarani, São José e Palestra de São Bernardo, mas foi em 2014 que chegou ao seu clube atual: o Água Santa. Em 2014 o volante foi emprestado para o Taubaté e no ano seguinte para o Cuiabá para disputar o Brasileirão, mas em 2016 voltou para o Netuno com o fim de disputar o Campeonato Paulista, mas Serginho garante que “apenas foi uma saída por empréstimo, eu nunca perdi o vínculo com o Água Santa”.


Quando você está começando uma profissão não é fácil, e se tratando de futebol não é diferente, não se começa do topo, e para Serginho também foi difícil. Hoje em dia são muitos recursos oferecidos para os novos jogadores que enfrentam o desafio para se tornarem profissionais, diferente de antes. De acordo com o volante e meio-campista, era necessário gostar mesmo de jogar futebol e não estar ali por outros 'interesses', “a gente tinha que se virar para conseguir o que queria”, conta que precisava se locomover para outros clubes que eram longe de sua casa: “eu tinha que ir para o interior, pois não existia o Água Santa na época”.


Quando você não é um profissional, não precisa haver tanto comprometimento, assim acontece no futebol amador. Entre o futebol amador e o profissional não é só a diferença financeira e nem qualidade do campo, o dia a dia é completamente diferente também. Enquanto no profissional o jogador precisa treinar todos os dias até dois períodos diferentes, no amador os jogadores só se reúnem aos finais de semana. Serginho cita a falta que a família faz, “no amador dá para passar mais tempo com os filhos e a esposa”.


O fato do Água Santa ser um time relativamente novo no cenário paulista/nacional, não ajuda tanto se tratando dos garotos da base. No caso do Netuno, sendo estreante no Campeonato Paulista, a pressão é maior por ter grandes chances de cair para o rebaixamento por falta de experiência dos atletas, mas “a vinda dos jogadores da base é excelente” diz o volante.


Relação com o Água Santa

Serginho joga no Água Santa desde que o time era considerado amador, na época ele jogava pelo Paraná Clube, ficou lá por dois anos. Morando em Curitiba, quando tinha folga se deslocava do Sul do país até o Sudeste apenas para ajudar os amigos. Após a profissionalização do Clube, foi convidado pelos donos a fazer parte do projeto inicial e continua fazendo parte desde então.


No começo quando saiu da várzea para disputar o campeonato profissional pelo Água Santa, não foi fácil e havia muitos gastos, mas hoje é um time considerado abaixo dos grandes e não apenas um time de bairro. Muitos jogadores desejam ir para o Água Santa pelas condições financeiras e pela estrutura que ele oferece – academia, vestiário, copa e toda ajuda necessária. Serginho se mostra emocionado quando fala do seu atual clube: “hoje o clube faz parte da minha vida, meus filhos tem livre acesso, eles participam da escolinha do Água Santa” e complementa dizendo “o que eu puder fazer para estar ajudando, não só o clube, mas como a cidade, eu vou ajudar, pois é o time da minha vida”.


E finalizando nossa conversa com o volante do Netuno, não deixamos de perguntar qual seria as dicas de um profissional para a nova geração de garotos que ainda se interessam por futebol apesar de tantos outros interesses envolvidos atualmente com o esporte.


Serginho se preocupa com a educação, recomenda que todas as crianças pensem primeiro nos estudos antes de pensarem apenas em jogar futebol. Levando em consideração as escolinhas de futebol do Água Santa, é necessário que a criança interessada em ingressar, esteja matriculada no ensino fundamental. “Se é um sonho, quem gosta mesmo precisa se dedicar ao máximo”, diz Serginho. Afirma que o apoio dos pais e família é importantíssimo, afinal, estamos falando do sonho de uma criança.

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